Há 10 anos, no dia 19 de julho de 2008, o Brasil se despedia de Dercy Gonçalves. Fosse atuando, cantando ou fazendo humor, a atriz encantou diversas gerações ao longo de seus 101 anos de vida.

Nascida Dolores Gonçalves Costa, em 23 de junho de 1907, ela explicou a escolha do nome artístico em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, em 1995: “Sempre usei Dercy Gonçalves, desde que saí da minha casa. Porque em primeiro lugar eu tinha medo do meu pai. De meu pai não deixar, não querer. Porque era ser p*** ser artista. Então tirei logo meu nome.”

“Botei Dercy, porque a dona Darcy Vargas era uma mulher muito importante na época, como sempre foi, e eu gostava do nome dela. Mas já tinha um Darcy, Darcy Casarré (ator)”, disse. A atriz se referia à então ex-primeira-dama do Brasil e a dona de sua companhia de teatro.

Relembre alguns pensamentos da atriz: (*)

Dercy por Dercy – “Sou muito desaforada, muito malcriada. Sou atrevida mesmo, sabe? Não levo desaforo pra casa de ninguém. De boca, briga de tapa eu não gosto, não”. “Sou uma mulher independente, nunca mais precisei de dinheiro de homem. Eu ganho, resolvo meus problemas, decido minha vida, não gosto de conselhos. Não sei se agrado. Se eu desagrado sendo assim, f***-se.”

Herdeira? – “Não tem herdeira. Igual a mim não tem, igual ao Pelé, não tem. Podem fazer o gênero, aquilo que Dercy Gonçalves fazia e era chamada de ‘p***’, ‘bota essa mulher na cadeia’. Meus filmes eram assim, eu tinha medo de sair na rua, ‘não presta, é uma m***’… E hoje é cultura essa p*** toda!”

Humor – “Não acho graça em ninguém. É tudo tão superficial. Pensam que sair vestido de mulher, de veado, ficar dando porrada um no outro, isso que é comédia? Comédia não é isso.”

Mulher – “A mulher cômica é discriminada. Eles gostam mais do homem. O homem engraçado é atraente, a mulher cômica tem uma discriminação. Eu, como nunca andei atrás de homem, não me faziam falta nenhuma, eu nunca dei importância a isso. Mas que tem discriminação, tem. Pra qualquer negócio não chamam mulher, chamam um homem. Só quando não tem nada a mais pra fazer.” “Eu adoro ser mulher. Sou uma feminista nata e sem título. Eu gosto de ser mulher, aprecio minha atitude, gosto de ser vaidosa, imagina se eu fosse homem? Podia botar colar, brinco, perninha de fora, meia de seda? Era tudo discriminando. É lindo ser mulher. Mulher que pare! Quer coisa mais linda você ser criadora do mundo? Mulher tem um valor espetacular. Como vou querer ser homem? P***, enfia aquela banana e não faz mais nada!”

Feminismo – “Acho elas (feministas) umas babacas. Porque as feministas ficam com um idealismo falso. Elas não enfrentam. Todas tem marido, são cortejadas, resguardadas. Vai enfrentar a vida como eu enfrentei, sozinha no mundo sem mãe, sem pai, tive um ano quase no sanatório.”

Estilo – “O meu estilo eu criei, permaneceu, e é o que tá comandando. O estilo não era esse, não, meu bem. Duvido que uma atriz qualquer dessas aí, classuda, que não assoa o nariz, aceitasse levar um pastelão na cara, dar uma gargalhada, levantar as pernas, deitar na cama de mal jeito, eu duvido. Esse é meu gênero, irreverente, que lancei, que tenho muito orgulho de ser a professora desse gênero do meu país.”

*frases retiradas de entrevistas aos programas “Roda Viva” e “Gente de Expressão”.

Guilherme Beraldo
Jornalista, crítico de TV e ator. Já participei dos seguintes programas: A Tarde é Sua e Manhã Maior na RedeTV, na Gazeta do "Mulheres", Versátil e Atual e Conexão com Zé Américo na CNT. Apaixonado por programas de auditório e musicais.